Urgência de soluções sustentáveis

Marina Feferbaum, Clio Nudel Radomysler, Heloísa Salles Camargo e Marco Antonio Silva Costa
11 de fevereiro de 2026

Integrar competências verdes ao currículo universitário não é apenas resposta às transformações do mundo do trabalho, mas reafirmação do papel social da universidade

A cada dia, sobretudo pelas consequências cada vez mais visíveis do aquecimento global, a questão ambiental ganha centralidade no debate público, nas políticas públicas e nas estratégias organizacionais. Ressalvados casos de negacionismo climático, temas como preservação das florestas, redução do uso de combustíveis fósseis e transição para fontes de energia limpa já são amplamente reconhecidos como preocupações sociais relevantes.

Outros, entretanto, ainda desafiam a compreensão do público em geral, como a pegada de carbono da pecuária, o custo ambiental do uso intensivo de inteligência artificial ou as contradições da eletrificação veicular frequentemente apresentada como “solução verde” pela indústria. Em geral, toda atividade econômica produz externalidades ambientais, diretas ou indiretas, ainda que nem sempre perceptíveis.

As mudanças climáticas impõem limites concretos à viabilidade da sociedade como a conhecemos, com pontos de inflexão cada vez mais próximos para a sobrevivência de diversas espécies e para a estabilidade dos sistemas econômicos e sociais. Diante desse cenário, instala-se uma urgência generalizada por soluções sustentáveis. Essa urgência se manifesta tanto nas rotinas do nosso cotidiano, como a redução do consumo de papel, a racionalização do uso de energia e a reutilização de insumos, quanto nos macroprocessos produtivos, que envolvem a adoção de materiais menos poluentes, o desenvolvimento de tecnologias mais eficientes e a reorganização logística das cadeias de valor.

Para que organizações e mercados consigam se adaptar às crescentes exigências ambientais e aos seus impactos econômico-sociais, a sustentabilidade precisa deixar de ser tratada como um tema periférico ou meramente reputacional e integrar o núcleo da atuação profissional. Tampouco podem ser secundários os impactos sociais e as desigualdades associadas às mudanças climáticas. A centralidade da questão ambiental exige uma mobilização conjunta, prática e teórica, desses dois debates. É nesse contexto que emerge a noção de competências verdes.

Mais do que uma postura ética ou uma consciência individual, competências verdes correspondem a um conjunto articulado de conhecimentos, habilidades, valores e atitudes necessários para viver, trabalhar e tomar decisões em uma sociedade sustentável e eficiente no uso de recursos. Elas não se restringem aos chamados “empregos verdes”¹, mas se manifestam de forma transversal em diferentes profissões, variando conforme o campo de atuação.

Não basta, portanto, demonstrar preocupação ambiental. A depender do contexto, é necessário que o profissional seja capaz de mensurar impactos ambientais, identificar riscos climáticos e regulatórios, avaliar custos e benefícios de diferentes alternativas e tomar decisões que reduzam danos ambientais sem comprometer a viabilidade econômica das atividades.

 

Empregos verdes

Essa transformação já se reflete de forma concreta no mundo do trabalho. Até 2050, a meta global de emissões líquidas zero firmada pelo Acordo de Paris em 2015 tende a remodelar mercados e profissões. Estima-se a criação de um número significativo de empregos verdes até 2030, ao mesmo tempo que cresce um descompasso entre a crescente demanda por competências verdes e a capacidade de formação disponível, o que tende a aprofundar desigualdades e gargalos de qualificação.

É nesse ponto que o currículo universitário assume papel central. A incorporação de competências verdes exige uma revisão profunda dos modelos tradicionais de formação. Não se trata apenas de criar disciplinas isoladas sobre sustentabilidade ou meio ambiente, mas de integrar a dimensão ambiental de forma transversal aos cursos, conteúdos e metodologias. Espera- se que estudantes aprendam a identificar impactos ambientais em decisões técnicas, jurídicas, econômicas e tecnológicas, compreendendo a sustentabilidade como um critério estruturante da atuação profissional.

Isso implica repensar currículos excessivamente compartimentalizados e avançar em propostas interdisciplinares, baseadas em problemas reais, estudos de caso e projetos aplicados. Questões como avaliação de riscos climáticos, conformidade ambiental, transição energética, uso responsável de tecnologias digitais e governança sustentável devem dialogar entre áreas, rompendo a lógica de uma formação exclusivamente técnica ou normativa. O incentivo institucional a espaços de troca, em que docentes e profissionais possam compartilhar experiências relativas ao aprendizado e aplicação de competências verdes, é, nesse sentido, de grande valia para a elaboração de diretrizes inovadoras e contextualizadas.

Além disso, a formação universitária deve preparar os estudantes para lidar com incertezas e dilemas próprios da transição ecológica. Muitas decisões consideradas “verdes” envolvem custos, impactos distributivos e escolhas complexas, que não admitem respostas simples. O ensino superior tem papel decisivo ao oferecer ferramentas analíticas, pensamento crítico e capacidade de tomada de decisão informada.

Integrar competências verdes ao currículo universitário, portanto, não é apenas resposta às transformações do mundo do trabalho, mas reafirmação do papel social da universidade. Formar profissionais tecnicamente competentes, eticamente responsáveis e ambientalmente conscientes é condição essencial para a relevância do ensino superior no século XXI.

¹O conceito de emprego verde é apresentado pela OIT como “empregos que contribuem para preservar ou restaurar o meio ambiente, seja em setores tradicionais como manufatura e construção, ou em novos e emergentes setores verdes, como energia renovável e eficiência energética” (2024).

Referências

World Economic Forum (2025). Global Green Jobs Outlook.

World Employment and Social Outlook: Trends.McKinsey & Company (2024). The Green Skills Gap.

Organização Internacional do Trabalho – OIT (2025). Green jobs: improving social and environmental outcomes. ILO, 2024.

Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico – OCDE (2024). Jobs and the Net-Zero Transition.

 

Originalmente publicado em:
Revista Ensino Superior, n. 299.